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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A Vingança de Althorn - Final


Althorn caiu de joelhos. Gritos guturais escapavam de sua boca. Nas veias corria um ácido que queimava cada milímetro dos seus limites. De repente duas asas brancas explodiram às suas costas e um súbito alívio o preenchera de uma vez.

Ele abriu os olhos. Analisou as mãos, agora tão alvas quanto a neve, e foi se colocando em pé. O esboço de um sorriso se formou ao vislumbrar seu novo apêndice alado.

– Venha Althorn. – Nephael chamou. – Pode sair agora.

Sem mais demorar-se, encolheu o novo corpo angelical e foi passando pela fenda.

Mal tivera tempo de se pôr em pé. Segurando firmemente a espada de Yahweh, Nephael voou em sua direção. O semblante há pouco terno, se transfigurou, vertendo a mais profunda cólera.

– Você achou mesmo que poderia ser um de nós, Althorn?

Althorn sentiu um desconforto com o líquido quente e viscoso lhe subindo pela garganta. Segurou vacilante a espada fincada no tórax e fitou com fúria os olhos de Nephael.

– Era exatamente para isso que eu ainda precisava de você. – O anjo falou exultante. - Não perderia a chance de matá-lo com a única arma capaz de exterminar um anjo!

Um ódio impetuoso, sem precedentes até mesmo para um demônio, o dominou. As mãos vacilantes, que seguravam a lâmina, agarraram-na com força. Althorn tomou impulso e foi empurrando o traidor contra o paredão rochoso. Sustentou as mãos no apoio do cabo e o encurralou.

Com a força de mil demônios, Althorn enterrou o longo cabo da espada de Yahweh no peito do trapaceiro.

– E você achou mesmo que eu havia acreditado em você? – Agora com uma mão pressionando o cabo e a outra o pescoço do inimigo.

Um fluído avermelhado escapava da ferida do celestial. Junto com ondas de energia, percorria o curto caminho do cabo até a lâmina transpassada no seu oponente.

– Tudo fora combinado! – Althorn falou entre dentes. – A minha prisão, o rompimento do pacto do equilíbrio, o acordo para ficarmos com a espada... Não era de meu pai que eu queria me vingar! Há muito esperávamos por este momento! Todos nós!

A carcaça branca de Althorn foi ganhando a tonalidade vermelha. Ele estava sendo preenchido com o líquido vital de Nephael, bombeado pelas ondas de energia que escapavam do seu corpo. As ondas percorriam o curto trajeto entre o cabo da espada e a lâmina fincada no opositor.

– E agora, meu caro, quem não tem saída é você!

Althorn bruscamente se afastou.

Nephael caiu. Não tinha forças para se levantar tamanho o estrago. Com o peito arrombado e o corpo exangue, só restava esperar que fosse salvo pelos seus irmãos. Eles já chegavam, ocupando o firmamento.

Althorn retirou a lâmina do tórax, cuja ferida se fechou de imediato. Olhou para os milhares de anjos brancos. Quando soube que não estavam ali para atacar, segurou Nephael pelos cabelos e com a espada sagrada arrancou-lhe a cabeça, a erguendo a seguir.

– Vejam! – Ele gritou. – Vejam o que restou do nosso algoz!

Os celestiais menearam as cabeças.

O anjo vermelho lançou a cabeça de Nephael na fenda da montanha. Uma explosão chacoalhou o solo. A rocha arrebentou arremessando pedras morro a baixo, e o bloqueio foi desfeito.

Feito um vulcão em erupção, a montanha cuspia demônios. Eles preencheram céus e terra em mesmo número dos celestiais.

– Que o equilíbrio seja restaurado! – Althorn bradou causando um furdunço de contentamento.

O arcanjo Gabriel se aproximou. Sem nada dizer, Althorn entregou a ele a espada, que deveria voltar para o seu lugar.

– Este é o final de uma era. – Gabriel tomou a palavra. – É a retomada de um tempo onde cada ser humano pode ter o livre arbítrio. Nephael jamais compreendeu que a constante criação e alteração do universo depende de nossa sintonia. Mas eu não o culpo. – baixou o olhar com tristeza e um breve silêncio se fez. – Obviamente viver em um mundo de paz, sem o toque do mal seria magnífico, porém utópico. – voltou os olhos para Althorn por alguns instantes. – Nossas interações são energias complementares que se equilibram. Além de tudo o que envolve o cosmos, é deste fluxo energético que também depende o aprimoramento dos homens. Assim foi no princípio e que assim seja para sempre.

O arcanjo fez um gesto de agradecimento. Althorn retribuiu.

Assim que Gabriel se retirou, anjos e demônios se dispersaram. Cada um deles tinha funções importantes a cumprir.

– Ele não perguntou como você voltou com a espada tão rapidamente? – Mitrius perguntou ao se aproximar do filho.

– Não. Talvez tenha pensado que a peguei sem que fosse percebido.

– Ele jamais desconfiou.

– É verdade. Jamais desconfiou que nos unimos ao seu próprio povo para que fosse banido. Foi uma vingança contra a sua tirania. Uma vingança lenta e dolorosa para todos nós.

– Certamente. Mas deixemos o passado para trás. Como diria um velho demônio que conheci, para a desgraça da espécie humana, mais uma página se cumpriu!

– Ah, por favor. Não me fale em páginas!

Ambos riram.

2 comentários:

  1. Conto bem narrado, a história é muito interessante, o desfecho é inesperado e muito legal.

    Muito interessante também ter levantado a questão do equilíbrio: só existe o Bem porque existe o Mal. Um não vive sem o outro e, para evoluir, é necessária uma "base de comparação", ou seja, o Mal precisa cumprir seu papel para que os humanos, imperfeitos como são, evoluam.

    Adorei!!! Parabéns por mais esta criação, Susy!

    Beijocas!!!!

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  2. Poucas coisas me emocionam (e vc conseguiu!).

    Obrigado pela homenagem no final do conto!

    Ah, o Thyrliath tbm agradece! hahahaha!!!!

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